A pior solidão é acompanhada
Há uma solidão que não se resolve com mais pessoas à volta. Sentimo-la no meio da multidão, nas relações de sempre, em salas cheias. E é das mais difíceis de se lidar - precisamente porque parece não ter motivo.
Já deves ter ouvido dizer que a pior solidão é sentida no meio da multidão. Quando temos tantas pessoas à nossa volta e, ainda assim, nos sentimos sós. Quando estamos numa sala cheia, mas sentimos que ninguém nos escuta nem vê.
Esta é uma das formas de sofrimento mais difíceis de validar, porque não tem a aparência que esperamos do sofrimento. Não é a solidão de quem está isolado, de quem não tem a quem ligar, de quem chega a casa e não encontra ninguém. É a solidão de quem tem tudo isso e, ainda assim, sente que falta qualquer coisa fundamental - uma ligação de verdade.
A presença não é o mesmo que conexão
A solidão pode chegar até qualquer um de nós. Até aos que estão sempre em festa, aos mais populares, aos que namoram e casam, aos que têm famílias grandes e barulhentas, aos que enchem as histórias do Instagram com sorrisos rasgados.
A presença física não é conexão: são coisas diferentes, e confundi-las tem um custo.
A conexão exige que sejas visto. Não a versão de ti que apresentas para agradar, para ser aceite, para não perturbar. A versão real - com as contradições, as inseguranças e os lados que consideras menos apresentáveis. Quando isso não acontece, podes estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir-te completamente sozinho. Porque quem está na sala não és realmente tu.
O que fazemos para não ser rejeitados
Ocultamos partes de quem somos. Ficamos prisioneiros de relações superficiais onde tudo corre bem porque nada de importante é dito. Encolhemo-nos para caber em grupos que, se nos vissem a sério, talvez não nos quisessem - ou pelo menos é isso que tememos.
Este processo raramente é consciente. Não acordamos de manhã com a decisão de nos esconder. É algo que acontece aos poucos, ao longo de anos de pequenas adaptações: a opinião que não expressámos para não criar conflito, o sentimento que engolimos para não parecer demasiado, a necessidade que não mostramos porque aprendemos, em algum momento, que ser precisado é ser um fardo.
E assim vamos construindo relações que cabem bem na superfície: agradáveis, funcionais, inofensivas, mas que não chegam onde dói.
O que a solidão acompanhada nos faz
Tudo isso destrói, pouco a pouco, com o desgaste silencioso de quem dá sem receber, de quem está presente sem ser encontrado, de quem sorri e responde “estou bem” tantas vezes que começa a acreditar que é mesmo assim.
A ciência tem sido clara: a solidão crónica tem efeitos reais na saúde física e mental. Este é o resultado previsível de uma necessidade humana fundamental que não está a ser satisfeita. Somos animais profundamente sociais. Não apenas no sentido de precisarmos de companhia, mas no sentido de precisarmos de sermos conhecidos. De haver alguém que nos veja e queira ficar.
O antídoto não é mais pessoas
Num mundo em que estamos cada vez mais conectados e cada vez mais distantes, é tentador pensar que a solução passa por estar com mais gente, sair mais, aceitar mais convites, encher a agenda.
Mas o antídoto para a solidão não é a quantidade - é a qualidade. São as poucas relações em que não precisas de fingir absolutamente nada, em que podes dizer o que pensas sem medir as palavras, mostrar o que sentes sem pedir desculpa, ser quem és sem fazer esforço para isso.
Essas relações existem, mas exigem que te arrisques a ser visto. E esse risco só é possível quando acreditas, ainda que um pouco, que vales a pena ser conhecido.
Sentires-te assim não é fraqueza - é sinal de que mereces mais do que tens tido. A terapia pode ser o sítio onde começas a encontrar isso. Se quiseres, eu estou aqui.
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