A tua identidade tornou-se a tua prisão
Quando construímos a nossa identidade em torno de um único pilar - a profissão, o estatuto, a beleza ou o cuidar dos outros -, criamos, sem nos apercebermos, a nossa própria prisão. E o dia em que esse pilar desaparece pode ser o início da liberdade.
Já te aconteceu sentir que todo o teu valor depende de apenas uma área da tua vida? Como se, caso perdesses essa única coisa que te define, deixasses simplesmente de existir?
A Miranda Priestly de O Diabo Veste Prada personifica este medo com uma clareza desconcertante. Durante décadas, ela foi a mulher mais poderosa da Moda. Mas o que acontece quando esse poder deixa de ser relevante, num mundo cujas regras mudaram? O que sobra de alguém quando a função que sempre o definiu deixa de fazer sentido?
A identidade de pilar único
Tal como ela, muitos de nós construímos uma identidade alicerçada num único elemento: a profissão, o estatuto, a beleza física, a capacidade de cuidarmos de todos à nossa volta. É uma construção que funciona bem, durante algum tempo. Dá-nos um sentido claro de quem somos, uma resposta imediata à pergunta "e tu, o que fazes?", uma forma de nos posicionarmos no mundo.
O problema começa quando esse único pilar passa a ser toda a estrutura. Quando depositamos tudo o que somos numa única função, a nossa identidade transforma-se numa espécie de prisão. Não uma prisão que se vê. Uma prisão feita de expectativas, de papéis que nunca questionámos, de um "eu" que só existe quando é útil, reconhecido ou admirado.
O dia em que o pilar desaparece
Um dia, os filhos crescem e saem de casa. O mercado de trabalho muda e a carreira que construímos durante décadas evapora. O espelho deixa de devolver a imagem da juventude. O corpo que sempre funcionou começa a dar sinais de que tem limites.
E nós desabamos. Não porque sejamos frágeis, mas porque construímos a casa toda num único alicerce - e ele cedeu.
O que sobra quando a identidade que criámos deixa de ter condições para existir? Silêncio. Dúvida. Caos. Uma sensação de vazio que pode ser assustadora, precisamente porque nunca nos permitimos imaginar um "eu" para além do papel que desempenhávamos.
O caos como ponto de partida
Mas há algo que raramente conseguimos ver quando estamos dentro dessa experiência: o colapso da nossa persona pode ser o início da liberdade.
Não é um processo fácil nem rápido, e não é algo que se atravessa sozinho com facilidade. Mas existe, nesse momento de desorientação, uma oportunidade real de descobrirmos quem somos.
Porque a liberdade começa no momento em que aceitamos que o nosso valor não se limita a sermos "úteis", "poderosos" ou "bonitos". E não dependemos de uma função, de um cargo, de uma fase da vida ou de uma imagem para existirmos e para valermos.
Afinal, somos todos tão mais do que isso.
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