O luto de quem teve de tratar de tudo
Houve quem chorasse na hora da perda, tu estavas ao telefone, a tratar de tudo. Há um luto que só chega mais tarde, fora de prazo e com culpa à mistura.
Há lutos que só começam quando já toda a gente foi para casa.
Houve quem chorasse no funeral, tu estavas ao telefone. Alguém tinha de avisar a família, ligar à agência, tratar dos papéis, encomendar as flores - e calhou-te a ti. Calha quase sempre a ti. Enquanto os outros sentiam, tu resolvias. Não porque doesse menos, mas porque alguém tinha de ficar de pé. Foste tu, és sempre tu.
O corpo aguenta enquanto é preciso alguém de pé
Antes de qualquer explicação, importa dizer-te uma coisa: não estiveste a fugir à dor. O teu corpo fez aquilo que faz sempre que o chão treme - escolhe prioridades. Quando há decisões para tomar e pessoas para amparar, a parte que sente fica em modo de espera, para que a parte que age possa funcionar. É um mecanismo de sobrevivência: o teu corpo protege-te para que tu possas proteger todos à tua volta.
A dor ficou em pausa, à espera de espaço
Só que aquilo que se adia não desaparece. A dor não foi embora: ficou em pausa, à espera de espaço. E o luto, este e qualquer outro, chega sempre que encontra o espaço de que precisa.
Por isso é tão comum a conta só aparecer quando aparece o silêncio. Passada a azáfama, tratados os papéis, quando a casa volta à rotina e já ninguém precisa que sejas forte, é que o corpo se permite sentir o que andou a segurar. Não estás a recomeçar o luto, estás a começá-lo agora que, pela primeira vez, há lugar para ele.
A culpa de chorar fora de prazo
E então surge o pensamento que tanta gente carrega em segredo: "porque é que eu ainda não chorei como deve ser?"
Repara na expressão "como deve ser", é aí que está a armadilha. Aprendemos, sem que ninguém nos ensine diretamente, que o luto tem uma forma certa e um prazo certo: chora-se no funeral, sente-se nas primeiras semanas e depois segue-se em frente. Quando a tristeza chega fora desse calendário, parece uma falha. E, como vem fora de prazo, traz a culpa consigo: culpa por não ter sentido "na altura", e culpa por sentir agora, quando toda a gente parece estar a seguir em frente.
Essa medida do "como deve ser" é uma regra rígida que aplicamos a nós próprios - e é ela, muitas vezes mais do que a dor, que torna o peso difícil de suportar. À perda real juntamos uma segunda dor, feita de autocrítica.
Podes ter sido o pilar e precisar de desmoronar
Há duas coisas que costumamos tratar como opostas e que, na verdade, cabem dentro de ti ao mesmo tempo. Podes ter sido o pilar de toda a gente e podes precisar, agora, de espaço para te desmoronares um bocadinho.
O luto não tem calendário. O facto de chegar quando os outros já se começam a reerguer não o torna menos verdadeiro nem menos legítimo. E há aqui um trabalho concreto, que costuma fazer-se melhor acompanhado: largar a ideia de que havia um prazo a cumprir, deixar de medir a tua dor pela dos outros, e dar a ti a mesma coisa que deste a todos naqueles dias: presença, paciência e espaço para sentir.
Se foste sempre quem tratou de tudo, é possível que nunca tenha havido um momento em que cuidasses de ti. A terapia pode ser esse espaço. Se quiseres, eu estou deste lado.
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