O que a Eurovisão nos ensina sobre lidar com as críticas
As críticas doem. Mas, tal como na Eurovisão, as avaliações que recebemos dizem tanto sobre quem nos julga como sobre nós próprios. Aprender a separar as duas coisas pode mudar a forma como lidamos com o julgamento.
As críticas são como setas disparadas na nossa direção: doem, mesmo quando nos preparamos para o impacto. E, por isso, há quem passe o dia num estado de alerta constante. Cada decisão, cada passo e cada palavra são pensados para agradar a um painel de jurados que, muitas vezes, só existe na nossa cabeça.
Ver um artista receber "zero pontos" à frente de milhões de pessoas é profundamente desconfortável. Faz-nos contorcer, suster a respiração e pensar: "eu jamais sobreviveria a isto."
Mas por detrás desse desconforto esconde-se uma verdade que nem sempre paramos para ver.
As avaliações raramente avaliam apenas o mérito
As votações da Eurovisão expõem algo que ignoramos no dia a dia: uma avaliação raramente mede só o nosso valor. Quem nos julga usa, muitas vezes, lentes enviesadas - tem preferências, preconceitos, alianças e antipatias que nada têm a ver connosco.
Na Eurovisão isto é evidente: as votações são atravessadas por relações geopolíticas, por gostos culturais, por modas que favorecem certos estilos em detrimento de outros. O artista pode fazer a melhor atuação da sua vida e ainda assim receber uma pontuação que não traduz o que apresentou.
Na vida, acontece o mesmo: o chefe que nunca reconhece o teu trabalho pode estar a projetar as próprias inseguranças, o familiar que critica as tuas escolhas pode estar a falar mais de si do que de ti. Um comentário maldoso nas redes sociais diz quase sempre mais sobre quem o escreve do que sobre quem o recebe.
Analisar antes de absorver
Isto não quer dizer que devamos ignorar todas as críticas, quer dizer que precisamos de aprender a analisá-las antes de as absorver.
E é aqui que entra uma das competências mais úteis que se treinam em terapia. Entre receber a crítica e tomá-la como verdade sobre nós existe um espaço importante que costumamos saltar: a seta chega e cravamo-la em nós sem a avaliar. Alternativamente, deveríamos parar e perguntar, antes de a deixar entrar: isto tem fundamento? Aponta-me um caminho para melhorar? Ou está mais carregado das frustrações de quem o disse do que de qualquer coisa que eu fiz ou sou?
Se a crítica for construtiva e tiver fundamento, podemos usá-la para evoluir, sabendo sempre que a nossa identidade e o nosso valor não cabem num número nem numa avaliação. Se não for, precisamos de aprender a devolvê-la, a reconhecer que aquela seta não nos pertence - foi atirada na nossa direção, mas carrega os medos e os enviesamentos de quem a lançou.
O teu valor não está sujeito a votação
Sempre que o mundo te der "zero pontos", não sejas tu o primeiro a concordar e a destruíres-te por dentro. Nenhuma crítica é uma verdade absoluta.
Há uma avaliação que costuma magoar mais do que todas as outras: a que fazemos a nós próprios, sem compaixão e sem margem para sermos humanos. Esse painel interno é, muitas vezes, o mais severo e o mais injusto de todos - e é também o que mais vale a pena aprender a questionar.
O teu valor não está, nem nunca esteve, sujeito a votação.
Se sentes que as críticas te paralisam ou te definem, vale a pena explorar isso em terapia. Não para te tornares imune ao julgamento, mas para aprenderes a separar o que é teu do que é dos outros - e a baixar o tom do crítico mais duro, que costuma viver dentro de ti. Se quiseres, eu estou aqui.
Pronto para dar o primeiro passo?
As consultas são 100% online.
Respondo em até 24 horas.