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Autoestima

O que a Eurovisão nos ensina sobre lidar com as críticas

14 de maio de 2026 · 5 min de leitura · Bruno Carvalho, Psicólogo Clínico

As críticas doem. Mas, tal como na Eurovisão, as avaliações que recebemos dizem tanto sobre quem nos julga como sobre nós próprios. Aprender a separar as duas coisas pode mudar a forma como lidamos com o julgamento.

O que a Eurovisão nos ensina sobre lidar com as críticas

As críticas são como setas disparadas na nossa direção: doem, mesmo quando nos preparamos para o seu impacto. E, por isso, algumas pessoas passam o dia num estado constante de alerta. Cada decisão, cada passo e cada palavra são pensados para agradar a um painel de jurados que, muitas vezes, só existe na nossa cabeça.

Ver um artista receber "zero pontos" perante milhões de espectadores é profundamente desconfortável. Faz-nos contorcer, suster a respiração, soltar um som de dor e pensar para nós mesmos "eu jamais sobreviveria a isto".

Mas por detrás desse desconforto esconde-se uma verdade que nem sempre paramos para analisar.

As avaliações raramente avaliam apenas o mérito

As votações da Eurovisão expõem um facto que ignoramos no nosso dia a dia: as avaliações raramente avaliam apenas o nosso mérito. As pessoas que nos julgam usam, muitas vezes, lentes enviesadas - têm preferências ocultas, preconceitos, alianças e antipatias que nada têm a ver com o que está a ser avaliado.

Na Eurovisão, isto é evidente: as votações são influenciadas pelas condições geopolíticas, há preferências culturais, há tendências que favorecem certos estilos musicais em detrimento de outros. O artista pode apresentar a melhor atuação da sua vida e, ainda assim, receber uma pontuação que não reflete aquilo que fez.

Na vida, acontece o mesmo. O chefe que nunca reconhece o nosso trabalho pode estar a projetar as suas inseguranças. O familiar que critica as nossas escolhas pode estar a falar mais de si do que de nós. O comentário maldoso nas redes sociais diz quase sempre mais sobre quem o escreve do que sobre quem o recebe.

Analisar antes de absorver

Isto não significa que devamos ignorar todas as críticas. Significa que precisamos de aprender a analisá-las antes de as absorver.

São construtivas? Têm fundamento? Apontam um caminho para evoluirmos? Se sim, então podemos usá-las para melhorar, sabendo sempre que a nossa identidade e o nosso valor não cabem num número ou numa avaliação.

Se não, precisamos de aprender a devolvê-las, a reconhecer que aquela seta não nos pertence - foi disparada na nossa direção, mas carrega consigo as frustrações, os medos e os enviesamentos de quem a atirou.

O teu valor não está sujeito a votação

Sempre que o mundo te der "zero pontos", não sejas o primeiro a concordar e a destruir-te por dentro. Porque nenhuma crítica é uma verdade absoluta. E porque a pior avaliação que podemos receber não é a que vem dos outros, é a que fazemos a nós próprios, sem filtro, sem compaixão e sem margem para sermos humanos.

O teu valor não está, nem nunca esteve, sujeito a votação.

Se sentes que as críticas te paralisam ou te definem, vale a pena explorar isso em terapia. Não para te tornares imune ao julgamento, mas para aprenderes a separar o que é teu do que é dos outros.

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