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Luto e Perda

Porque acontecem coisas más às pessoas boas?

27 de abril de 2026 · 5 min de leitura · Bruno Carvalho, Psicólogo Clínico

Crescemos a acreditar que a bondade nos protege das coisas más. Mas o sofrimento não escolhe quem o merece - e perceber isso pode ser o primeiro passo para lidar com ele.

Porque acontecem coisas más às pessoas boas?

Crescemos a acreditar num mundo justo e seguro: nos contos infantis, o vilão é derrotado e todos "foram felizes para sempre"; o Pai Natal premeia os meninos bem comportados; ensinam-nos que as pessoas boas vão para o Céu e que "a justiça tarda, mas não falha".

Todas estas narrativas levam-nos a crer que a bondade nos torna imunes às coisas más, como se fosse um seguro multirriscos. E, ainda assim, um dia o mal chega à nossa vida com uma força que não achávamos possível.

Alguém risca as portas do carro, uma doença autoimune vira-nos a vida do avesso, a nossa casa é levada pelas cheias ou pelos incêndios, o casamento de sonho acaba em divórcio, a empresa onde sempre trabalhámos fecha, um amigo de uma vida atraiçoa-nos, alguém que amamos morre, o cancro infiltra-se no nosso círculo mais próximo.

Mas, se não fizemos nada de mal, porque é que merecemos isto?

A resposta é tão simples que a sentimos como um murro no estômago: as coisas más acontecem às pessoas. Perante elas, somos todos iguais.

O sofrimento não é um castigo

As coisas más são como um totoloto em que estamos sempre a ir a jogo, mesmo sem o saber: é o único jogo da sorte em que os vencedores são os não premiados. As coisas más não são um castigo, e as coisas boas não são uma recompensa. São a vida a acontecer.

A ideia de que o sofrimento é merecido vem de uma crença que carregamos quase sem reparar: a crença no mundo justo. É um "atalho mental" que nos dá sensação de controlo e segurança. Se as coisas más só acontecem a quem faz mal, então basta ser bom para estar protegido.

O problema aparece quando algo de mau nos acontece - a crença vira-se contra nós. Começamos a procurar o que terá sido o nosso erro, a culpar-nos, a duvidar da nossa bondade. Em terapia, reconhecemos aqui um padrão de pensamento muito comum: assumir responsabilidade por aquilo que está fora do nosso controlo. E esse peso - carregar ao mesmo tempo a dor do que aconteceu e a culpa de o ter "causado" - é, muitas vezes, mais difícil de suportar do que o próprio acontecimento. É como se ao sofrimento real juntássemos uma segunda camada, feita só de pensamento, que ninguém nos obrigou a pôr lá.

A bondade não é um escudo, é um esqueleto

A bondade não nos serve de escudo: serve de esqueleto. Não nos protege das coisas más, mas dá-nos estrutura para lhes resistir.

É a réstia de esperança que nos mantém de pé quando o que nos aconteceu ameaça fazer-nos esquecer da nossa humanidade. Não por nos tornar imunes à dor, mas por nos dar um fio condutor de regresso a nós próprios, mesmo quando tudo o resto parece ter desaparecido.

Conseguir separar a dor da culpa - sentir o que aconteceu sem a ideia de que o "merecemos" - é um dos trabalhos mais importantes que se podem fazer em terapia. Não para apagar a dor, que não se apaga, mas para deixar de a agravar com uma acusação que não tem fundamento.

Quando algo nos parte, a tendência é virarmo-nos contra nós próprios. Não tens de atravessar isso sem ninguém ao lado: a terapia pode ser o espaço onde deixas a culpa que não te pertence e aprendes a carregar a dor sem que ela te esmague. Se quiseres, eu estou aqui.

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