Quem corre por gosto também cansa
O burnout adora as pessoas que adoram o trabalho. Quando damos tudo de nós ao que fazemos, é fácil não perceber quando cruzámos a linha entre dedicação e esgotamento.
Já perdi a conta à quantidade de vezes que ouvi a frase "escolhe um trabalho de que gostes, e não terás de trabalhar nem um dia da tua vida". É mentira. Quanto mais te importas, mais trabalhas - e mais te cansas.
É por isso que o burnout adora as pessoas que adoram o trabalho. Não porque amar o que se faz seja perigoso em si - isso é, aliás, uma das fontes mais poderosas de sentido e motivação. O problema está na forma como esse amor é vivido. Quando o trabalho deixa de ser algo que escolhes e passa a ser algo que és, quando a tua autoestima fica dependente do que produzes e a incapacidade de parar soa a virtude, é aí que se cria o terreno perfeito para o esgotamento.
Levas os problemas para casa. Respondes a e-mails ao jantar. Adiantas trabalho ao domingo. Acreditas sempre que tens mais para dar.
Parecem pequenos sacrifícios que valem a pena se gostares muito do que fazes. Afinal, tu és dos que vestem a camisola. Dos que usam o cansaço como uma medalha de mérito. Dos que têm sempre mais um bocadinho de si para dar.
Quando os sintomas parecem virtudes
O que torna o burnout particularmente traiçoeiro em pessoas que amam o que fazem é que os primeiros sinais são difíceis de reconhecer - porque se parecem, à primeira vista, com o oposto de um problema.
Trabalhar mais horas parece empenho. Não descansar parece disciplina. Ignorar os sinais do corpo parece resiliência. O distanciamento que vai surgindo, a motivação que vai desaparecendo, a concentração que falha em tarefas que antes fazias sem esforço, a sensação de que nada do que fazes é suficiente, o afastamento de colegas de quem antes gostavas parecem apenas um mau período, mas são um aviso.
O corpo vai avisando à sua maneira: perturbações do sono que não cedem, cefaleias frequentes, um cansaço que já não passa com o descanso de fim de semana. Mas quando adoramos o que fazemos, é fácil ignorar esses avisos. Ou, pior, usá-los como prova de dedicação.
Esta é, aliás, a razão pela qual o burnout avança tanto nas pessoas mais comprometidas: a cultura laboral recompensa os comportamentos que o alimentam. E quem os pratica acredita que está a fazer a coisa certa.
Quando o cansaço deixa de ser cansaço
Há uma diferença importante entre estar cansado e estar em burnout. O cansaço passa com descanso. O burnout não - e não passa, em parte, porque o próprio descanso perde a sua eficácia. Quando o desequilíbrio entre o que se dá e o que se recupera se prolonga demasiado, o sistema de recuperação fica ele próprio comprometido.
Um dia apercebes-te de que já não estás apenas cansado. Para além de sobrecarregado ou exausto, estás vazio. Deste tudo de ti, ao ponto de não teres mais nada para dar. E só tu sabes o quanto querias poder dar mais um pedacinho.
O burnout não acontece da noite para o dia, e raramente é apenas dependente de fatores individuais. Pelo contrário, é muitas vezes o resultado de um contexto de trabalho que normaliza o excesso e confunde sacrifício com valor, assim como de uma relação com o trabalho em que a identidade se fundiu com a função.
O trabalho não devolve o que lhe dás
Quando o teu corpo te obriga a parar, a empresa não abranda. Há, agora, outra pessoa a fazer o teu trabalho. Descobres que, afinal, não és insubstituível. E que, por muito que ames o que fazes, o teu trabalho não merece que lhe dês tudo aquilo que tens.
Isto é um limite saudável. Amar o que se faz e proteger a energia com que o fazemos não são coisas contraditórias. São, na verdade, a única forma sustentável de continuar a fazê-lo bem, durante muito tempo.
Porque o burnout não é fraqueza nem falta de dedicação. É o resultado de um desequilíbrio estrutural entre o que se dá e o que se recupera. Reconhecê-lo, em vez de o usar como medalha, é o primeiro passo para sair dele.
Recuperar do burnout leva, muitas vezes, mais tempo do que se pensa. Não é uma semana de férias nem um mês de baixa. É um processo que exige mudanças concretas na forma como trabalhas e na relação que tens com aquilo que fazes.
Se te reconheces neste texto, é importante procurares ajuda. Não para deixares de amar o que fazes, mas para aprenderes a fazê-lo sem te perderes no processo.
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