Não tens de perdoar para seguir em frente
Há um cliché que diz que perdoar é condição para avançar. Não é - e acreditar que é pode ser precisamente o que te está a prender.
Há quem diga que perdoar é um passo necessário para avançar. Eu discordo - e acho que este cliché traz mais dano do que benefício.
Perdoar é uma escolha como outra qualquer: não é melhor nem pior, e muito menos é a poção mágica para superar o mal que te fizeram.
O que acontece quando tentamos perdoar à força
Repara na forma da frase "tenho de perdoar para seguir em frente". É uma regra rígida, uma daquelas exigências que pomos a nós próprios e que parecem lei. E o curioso é que costuma ser a própria regra a prender-nos, não a falta de perdão.
Na tentativa incessante de perdoar, há quem fique ao mesmo tempo estagnado e revoltado: estagnado por acreditar que não pode avançar sem perdoar; revoltado consigo por se sentir incapaz de o fazer. É um ciclo desgastante e irónico: a obsessão com o perdão torna-se, ela própria, o obstáculo.
Por baixo desse esforço, muitas vezes, está uma tentativa de saltar a parte difícil: sentir a raiva, a mágoa, a decepção e a tristeza. Forçar o perdão pode ser uma forma de não ter de passar por elas, só que aquilo que não se sente também não se resolve.
O perdão não é condição - é uma possibilidade
Quando somos magoados ou traídos, temos o direito de decidir se faz sentido perdoar, e isso dirá se há, ou não, hipótese de reconstruir aquela relação.
A nossa capacidade de seguir em frente depende de integrar: reconhecer o que aconteceu, compreender o impacto real que teve em nós, e dar espaço às emoções que despertou sem as empurrar numa direção que achamos ser "a certa". Quem atravessa esse processo pode chegar ao perdão, ou não - de qualquer das formas, consegue avançar.
Porque podes seguir em frente com raiva e sem perdão; o que não podes é seguir em frente sem honestidade para contigo.
Este processo nem sempre acontece sozinho: a terapia é o espaço onde podes fazer este trabalho sem julgamento e sem pressão. Aqui, ninguém te diz o que devias estar a sentir. Se ainda estás à espera de perdoar para te sentires livre, talvez valha a pena começar por aí. Se quiseres, eu estou aqui.
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