"Desculpa estar assim": O mito de que chorar é fraqueza
Aprendemos que engolir as lágrimas é sinal de força e controlo. Mas quando pedes desculpa por chorar, estás apenas a repetir um padrão antigo que te impede de sentir de forma saudável.
Há quem tenha aprendido que chorar é perder o controlo, que quem sente demais é frágil e que as lágrimas devem ser escondidas. Talvez por isso, quando alguém começa a chorar em consulta, a reação automática seja muitas vezes a mesma, desviar o olhar, secar depressa as lágrimas e dizer:
"Desculpa estar assim."
Como se houvesse uma forma certa de estar na terapia: com tudo no sítio, capaz de dizer o que é preciso sem que a voz falhe.
As regras rígidas que impomos a nós próprios
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), olhamos para este momento através das crenças centrais: as ideias profundas sobre nós próprios que fomos absorvendo desde cedo. Muito antes de termos palavras para isso, ouvimos mensagens implícitas sobre o que significa ser "forte", e aprendemos que mostrar vulnerabilidade é perigoso, vergonhoso ou um fardo pesado de mais para os outros.
Quando dizes "desculpa estar assim", mais do que a pedir desculpa pelas lágrimas, estás a tentar responder a uma exigência interna que te diz que tens de manter o controlo absoluto para seres aceite. E, sem dares conta, passas o dia num esforço para engolir o que sentes e não perturbar a harmonia das tuas relações.
O problema é que esconder a dor não a faz desaparecer, apenas a esconde dentro de ti.
O ciclo do evitamento emocional
A TCC mostra-nos que pensamentos, emoções e comportamentos andam de mãos dadas. Uma situação desperta tristeza (a emoção), e logo a seguir dispara um pensamento automático - "não posso chorar" ou "isto é ridículo". O comportamento previsível passa a ser o mesmo: engolir as lágrimas, disfarçar com uma piada, pedir desculpa.
A esta tentativa constante de silenciar o que se sente chamamos evitamento emocional. A curto prazo parece resolver, porque recuperas a compostura e o desconforto diminui - é esse alívio imediato que torna o evitamento num hábito. Porém, a longo prazo, de cada vez que escondes a emoção estás a ensinar à tua cabeça que ela era mesmo perigosa, e ela passa a pedir-te que a escondas ainda mais depressa da próxima vez. O ciclo é este: sentes, julgas o que sentes, escondes, e o ciclo repete-se.
A terapia como espaço de reestruturação
Quando choras em consulta, eu não penso que isso seja fraqueza, nem que estejas a exagerar. E não preciso que te preocupes comigo: não me estás a deixar desconfortável.
Também importa desfazer o mito contrário: eu não vejo o choro, por si só, como prova de evolução. Há sessões importantes em que se chora do início ao fim, e há sessões igualmente transformadoras em que não aparece uma única lágrima. O ganho terapêutico não está no ato de chorar, mas na flexibilidade psicológica: a capacidade de dares espaço ao que sentes sem te julgares por isso.
Ao permitires-te sentir sem filtros, partes o ciclo do evitamento. E acontece então uma coisa simples e poderosa: descobres, na prática, que podes chorar à minha frente e nada de terrível acontece. A previsão antiga ("se eu me mostrar, vai correr mal") não se confirma. É a partir daí que se começa a trabalhar: a compreender o que ativa estas emoções, o significado que lhes dás e o esforço diário que fazes para as conter. Então, aprendes que podes sentir com intensidade e continuar em segurança.
Romper com padrões tão antigos exige aceitar que as emoções não são uma falha do teu sistema - são o próprio sistema a funcionar. Desmontar a crença de que o choro é uma fraqueza deixa ver as lágrimas pelo que são: uma resposta orgânica do corpo para processar o que está a sentir.
Passar a vida a vigiar o que sentes para não incomodar ninguém é uma prisão que sufoca. E talvez seja em terapia que comeces a experimentar outra coisa: sentir sem te justificares, sem te esconderes e sem pedir desculpa por seres humano.
Se passas os dias a controlar as tuas emoções com medo de seres um fardo ou de parecer frágil, talvez possamos começar por aí. A terapia é o espaço seguro onde podes largar esse peso. Se fizer sentido para ti, eu estou aqui.
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