Blog e artigos
Ansiedade e Stress

Setembro, o segundo Ano Novo

· 5 min de leitura · Bruno Carvalho, Psicólogo Clínico

Setembro pode trazer a sensação de que é preciso recomeçar tudo de uma vez. Mas transformar o regresso à rotina num reset total pode gerar mais ansiedade do que motivação.

Há qualquer coisa em setembro que nos faz sentir que estamos perante uma espécie de segundo Ano Novo.

O verão termina, as férias ficam para trás, o trabalho recomeça e, de repente, parece que temos uma lista inteira de coisas para resolver: voltar à rotina perfeita, ser mais produtivo, comer melhor, treinar mais, dormir melhor, organizar a vida, cumprir todos aqueles objetivos que ficaram para trás.

E aquilo que podia ser simplesmente um regresso à normalidade transforma-se, sem darmos por isso, numa espécie de promessa: desta vez vai ser diferente.

Só que há um problema em transformar setembro num grande recomeço.

Quando o regresso se transforma num reset total.

A ideia de começar de novo pode ser motivadora; há qualquer coisa de apelativo na sensação de virar uma página, organizar a vida e decidir que, desta vez, vamos fazer as coisas de outra maneira.

O problema surge quando confundimos recomeçar com mudar tudo ao mesmo tempo. De repente, estamos a tentar tornar-nos numa versão completamente nova de nós próprios: queremos acordar cedo, fazer exercício cinco vezes por semana, comer de forma impecável, responder a todos os emails, ler mais, passar menos tempo no telemóvel, organizar a casa, trabalhar melhor e, se possível, manter uma vida social equilibrada pelo caminho. Todas estas mudanças a começar no mesmo dia.

É fácil perceber porque é que isto pode gerar mais ansiedade do que motivação. Estamos a colocar sobre um único momento a responsabilidade de corrigir tudo aquilo que sentimos que não correu bem até aqui.

E, quando a realidade inevitavelmente aparece (porque dormimos até mais tarde, não treinamos, comemos qualquer coisa menos saudável, ou simplesmente tivemos um dia menos produtivo), parece que falhámos este desejado recomeço.

O problema não é a falta de disciplina

Quando estabelecemos demasiadas mudanças em simultâneo, cada uma delas passa a competir pela nossa atenção, energia e capacidade de adaptação. E isto é importante porque a motivação não é um recurso infinito.

Uma rotina nova exige esforço, duas exigem mais, cinco ou seis em simultâneo podem transformar aquilo que deveria ajudar-nos numa fonte permanente de autocontrolo. Nesta altura, podemos dar por nós a passar o dia a avaliar se estamos a fazer o suficiente: se acordámos à hora certa, se comemos bem, se treinámos, se fomos produtivos, se aproveitámos o dia ao máximo.

Aos poucos, a rotina passa a ser mais uma coisa em relação à qual sentimos que estamos constantemente a falhar. É aqui que pode surgir aquele pensamento familiar: “Eu nunca consigo manter nada.” Talvez o problema tenha sido teres simplesmente tentado construir uma nova versão de ti demasiado depressa.

Setembro não precisa de ser um novo começo

Existe uma alternativa menos espectacular e tentadora, mas muito mais sustentável: encarar setembro como uma continuação.

Em vez de começares o mês com uma lista de dez objetivos e uma personalidade nova, podes somente voltar àquilo que já funcionava: retomar horários, reorganizar os dias, voltar a algumas rotinas e perceber se algo em ti mudou durante o verão. E, a partir daí, escolhes uma (só mesmo uma) coisa que gostarias de construir ou melhorar.

Pode ser começar a caminhar regularmente, voltar a preparar algumas refeições saudáveis em casa, construir uma rotina de sono mais consistente, ou reservar algum tempo para uma atividade de que gostas e que ficou esquecida no passado.

Em vez de perguntares “como é que mudo a minha vida toda a partir de setembro?”, talvez valha a pena perguntar: “o que faz sentido começar a fazer de forma diferente?”

Não precisas de aproveitar setembro para te reinventares

Também vale a pena questionar de onde vem esta necessidade de recomeçar constantemente, porque, por vezes, o problema está na forma como nos relacionamos connosco próprios.

Se cada novo mês é uma oportunidade para corrigir aquilo que consideramos errado em nós, setembro pode tornar-se apenas mais um momento de insatisfação. E, por baixo de tudo isto, pode esconder-se uma mensagem menos evidente: “a pessoa que sou agora não é suficientemente boa para mim.”

Nesse caso, o objetivo passa a ser tentar provar a nós próprios que conseguimos finalmente ser a pessoa que achamos que deveríamos ser e essa é uma pressão muito diferente.

Então, gostaria que levasses contigo isto: não precisas de te tornar numa versão completamente nova de ti só porque o calendário mudou.

E se setembro estiver a trazer ansiedade?

O regresso ao trabalho e à rotina pode, naturalmente, trazer algum stress e ansiedade. Depois de um período de férias, é normal existir alguma dificuldade em voltar aos horários, às responsabilidades e ao ritmo habitual.

Porém, se sentes que setembro está a trazer muito mais ansiedade do que motivação, talvez valha a pena parar antes de tentares fazer mais uma lista de objetivos. Será que este regresso representa para ti apenas o fim das férias, ou traz consigo o medo de não conseguires dar conta do trabalho, pressão para compensar o que ficou para trás, culpa pelo que não fizeste ou a sensação de que tens de aproveitar esta oportunidade para finalmente “pôr a vida em ordem”?

Às vezes, perceber isso é mais importante do que definir o próximo objetivo. Setembro pode ser simplesmente o próximo capítulo, um capítulo em que não precisas de começar tudo de novo para continuares a avançar.

Não precisas de ter tudo claro para começar.

As consultas são 100% online.
Respondo no prazo máximo de 24 horas.

Pedir consulta
Regulação & certificação
OPP
Ordem dos Psicólogos PortuguesesMembro Efetivo · CP 30185
ERS
Entidade Reguladora da SaúdePsicólogo Registado · E177186